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CRÓNICA: A todas as mulheres

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DR O tempo muda tudo, sobretudo aquilo que nunca quisemos mudar nas nossas vidas. No início tudo era diferente. Foste entrando devagarinho, passo lento, para não me assustares. Mas conseguiste pressentir a minha sede de paixão e partiste à aventura. O teu corpo tinha tanta liberdade que pensavas conseguir voar com as minhas asas. Deixei, confesso, e durante anos, as minhas costas foram ficando curvadas, os meus olhos negros, o meu rosto marcado com a raiva que trazias nas mãos, o coração carregado de dor. Dizem que as mulheres perdoam tudo quando amam um homem. Mas podia aquilo ser amor? Fazes ideia de quantas vezes esbocei um sorriso aos nossos filhos para fingir que estava tudo bem? As marcas estavam cá e eles percebiam a mágoa que me deixavas em cada desavença. Ainda tentei medir o equilíbrio daquilo que sentia. Reprimi tudo como se eu própria fosse um objecto qualquer que não sente nada. E afinal, bastou um momento para me esquecer de novo e tu ataste-me com o teu ...

FIGUEIREDO DIAS: “Quando era miúdo, as coisas faziam-se por cunhas”

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  O processo Casa Pia é o exemplo de que os critérios de atuação da justiça têm que mudar. Jorge Figueiredo Dias, “pai” do Código de Processo Penal de 1987, acredita que a justiça só teria a ganhar se os sujeitos que intervêm no processo colaborassem entre si. Jubilou-se em 2007 da atividade docente na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC). O que tem feito desde então? Tenho feito o mesmo que fazia. Só não dou aulas na faculdade de Direito pública. Vou trabalhando, escrevendo alguma coisa, tentando fazer novos livros ou novas edições. Por outro lado, também dou pareceres como sempre dei. Ainda dá aulas? Sim, no Instituto Superior Bissaya Barreto. Quando se jubilou, demonstrou grande carinho pelos seus discípulos… Com certeza. Não sei se na altura me referia aos meus discípulos mais diretos. Mas posso dizer-lhe que essas relações continuam incólumes. Continua a ter um gabinete na Faculdade de Direito? Continuo. Nisso, a faculdade é impecável. É u...

JOE BERARDO: “Cavaco Silva matou a ambição dos portugueses”

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Foto: Carlos Jorge Monteiro "Eu acho que nada é impossível. Se um ser humano faz, o outro também é capaz de fazer." Em 2007 adquiriu o capital maioritário da Aliança, que passou a pertencer ao grupo Bacalhôa. Porque decidiu investir na Bairrada? Foi uma oportunidade de negócio, que foi concretizada depois de termos tido conhecimento que havia necessidade de fazer um aumento de capital. Eu tinha estado nas Caves Aliança há muitos anos e disse “ok, vamos lá ver”. E vimos que, além da grande tradição nos espumantes e das aguardentes, eram produzidos vinhos de regiões onde não estávamos presentes: um pouco do Douro, da Bairrada, do Dão. Foi o casamento ideal. Um casamento tão feliz que trouxe para aqui parte da sua coleção. O “Aliança Underground Museum” já é um caso de sucesso… Quis aliar o vinho à arte. Um dia estava a ver os pisos subterrâneos das caves e aquilo estava abandonado. Com as novas tecnologias, deixou de ser necessário colocar milhões de garrafas ...

EDUARDO SÁ: “Estamos a espatifar a infância das crianças”

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Foto: Gonçalo Manuel Martins   "As pessoas despem-se facilmente por fora e têm dificuldade em perceber que o grande desafio da vida é despirmo-nos por dentro. É darmo-nos a conhecer por dentro." O Estado não está a cumprir a lei no que respeita à proteção das crianças em risco , acusa Eduardo Sá . Em entrevista , o psicólogo lança duras críticas ao caso do desaparecimento de Rui Pedro que veio demonstrar que, em Portugal, há crianças de primeira e crianças de segunda. Os meios mobilizados, comparativamente aos de Maddie McCann , foram prova disso. Disse um dia que as crianças estão em vias de extinção… Estão. Não digo isso pelo facto de o Governo e a oposição as terem transformado numa espécie de conta poupança reforma. Acho até divertido que se fale de tudo e mais alguma coisa nas várias campanhas – presidenciais incluídas – e as questões das crianças e a política de fundo para a família nem sequer exista. Portanto, o que é que a mim me preocupa? Preocupa-me...

REPORTAGEM: De que cor são feitos os sonhos?

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Foto: Patrícia Cruz Almeida O sorriso de Maria Inês brilha mais do que a tiara que lhe enfeita o cabelo. A menina , de seis anos , quase não precisava de ir ao cabeleireiro para ser transformada numa princesa. Mas foi um dos sonhos que quis concretizar. No sábado, a Terra dos Sonhos concedeu-lhe o desejo, naquele que foi o primeiro projeto realizado pelo núcleo de Coimbra . Para a menina, portadora de uma doença crónica , a viagem de comboio que a levaria – a si, aos pais e às três voluntárias da Terra dos Sonhos – à Gare do Oriente, era apenas um passeio a Lisboa. Não sabia que o percurso de pouco mais de 200 quilómetros a levaria a um lugar onde “os sapos se transformam em príncipes e onde o mar é habitado por sereias”. Depois de uma primeira paragem no cabeleireiro onde se “transformou” numa princesa”, Inês viveu aquele que foi um dos momentos mais intensos do dia. “Quero viver aqui o resto da minha vida”, dizia, de rosto colado a um dos vidros do aquário Vasc...

REPORTAGEM (2009) - Ainda há anjos

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Foto: Gonçalo Manuel Martins São pessoas como nós. Na escuridão que adormece a noite, enfrentam o frio para ajudar os sem-abrigo. O DIÁRIO AS BEIRAS acompanhou os voluntários da Câmara de Coimbra.   21H45. Termómetros a bater nos três graus centígrados. No quartel da Polícia Municipal ultimam-se os preparativos para mais uma viagem. Nas próximas horas, Filipa Amaral (psicóloga), Cândido Lopes (voluntário da autarquia) e Bruno Serra (bombeiro sapador, que pela primeira vez transporta a equipa) vão distribuir alimentos, café quente e agasalhos pelos sem-abrigo. Não são muitos, é certo, mas os suficientes para deixar um nó na garganta. As luzes de Natal ainda brilham, mas escondem a solidão de muitos que pernoitam pelas ruas da cidade. José é presença habitual na área de máquinas automáticas da Caixa Geral de Depósitos. Está deitado num pedaço de cartão. Os voluntários entram com o objectivo de o convencer a pernoitar no quartel do Bombeiros Sapadores de Coimbra....

Eu, seguidor da religião U2, me confesso

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Dormiram no carro, fizeram tatuagens, foram os primeiros a entrar no estádio, gastam três mil euros para seguir a banda. São os fiéis devotos de Bono. Cobertores, sacos-cama, mochilas com comida. Passeios vedados, barreiras de segurança, ruas cortadas. Durante uma semana não se falou de outra coisa em Coimbra. Veio gente de todo o mundo. Milhares de pessoas que não se conheciam mas cujas histórias se cruzam num ponto: amor incondicional pelos U2. Duas gerações Vilar de Mouros, 1982. Ana Rodrigues tinha 28 anos e assistiu, pela primeira vez, a um concerto dos U2. Quase três décadas depois, foi o filho, de 22 anos, que a desafiou. "Veja lá: vim de véspera. Mas estou a gostar muito deste ambiente", diz a mãe, num acentuado sotaque do Norte. Nuno Magalhães já viu a banda irlandesa em Lisboa (2005) e em Dublin (2009). Aliás, ele foi um dos autores das petições para um segundo concerto (de três que se realizaram) na Irlanda no ano passado. Mas desta vez um é...